Está cada vez mais comum no campo ouvir que a inteligência artificial pode transformar organizações sociais. Mas existe uma pergunta anterior que ainda aparece pouco nas discussões: transformar exatamente o quê?
Antes de falar sobre ferramentas, dashboards, automações ou agentes, existe uma camada mais profunda e menos visível: quais são os problemas reais vividos pelas organizações? Onde estão os gargalos operacionais? Que tipos de trabalho consomem energia excessiva? Quais processos estão frágeis, lentos ou sobrecarregados? E, principalmente: onde as próprias organizações enxergam valor potencial no uso da IA?
E foi justamente nesse ponto que o projeto pedagógico do programa IA.3 se ancorou desde o início.
O programa criou espaço estruturado para que organizações participantes refletissem sobre seus próprios processos, detalhassem desafios concretos e exercitassem uma pergunta fundamental: “em que parte exatamente do nosso trabalho a IA poderia gerar valor real?”.
Uma das escolhas pedagógicas do IA.3 foi evitar que o aprendizado começasse pela tecnologia em si.
Em vez de iniciar perguntando “qual IA querem usar?”, o programa propôs outro caminho: olhar primeiro para processos, atividades e estratégias organizacionais.
Na prática, isso significou instigar que cada participante e a sua organização refletissem e descrevessem:
A provocação era simples: antes de imaginar a solução, é preciso compreender profundamente o problema. Muitas organizações chegavam dizendo que precisavam de dashboards, chatbots ou automações. O convite do programa foi incentivar que a conversa saísse da ferramenta para o problema: qual necessidade concreta existe por trás dessa demanda? Esse movimento ajuda organizações a desenvolver uma leitura mais estratégica sobre o papel da IA no fortalecimento institucional.
Ao fim da primeira atividade ao vivo com os participantes do programa, as organizações descreveram seus desafios em linguagem aberta, procurando detalhar fluxos de trabalho, contextos institucionais e hipóteses de aplicação da IA.
O que surgiu foi um conjunto de dados produzido pelas próprias organizações sociais, a partir de suas experiências cotidianas. É um mapa coletivo das necessidades institucionais do campo.
Esse material não foi produzido por consultorias externas. Não foi um diagnóstico construído com base em um pedido dos financiadores ou por especialistas. Trazendo um valor particular para esse material.
Inicialmente, a ideia era apenas compartilhar com os participantes as respostas anonimizadas em uma planilha. Mas rapidamente percebemos que os dados eram ricos demais para ficarem restritos a um Excel. Surgiu então a proposta de criar um ambiente interativo capaz de organizar padrões, categorizar desafios e transformar respostas abertas em um espaço navegável de aprendizagem coletiva.
A ferramenta passou a funcionar como uma espécie de biblioteca viva de desafios institucionais e organizacionais com interfaces sobre o uso da IA no campo social, preservando a autoria coletiva do conhecimento. Ajudando a revelar como as próprias organizações enxergam seus gargalos, prioridades e possibilidades de fortalecimento.
As organizações, ao longo do IA.3 não são apenas beneficiárias de uma formação, mas que também sejam produtoras de inteligência para o próprio setor.
O material coletado no IA.3 também ajuda a desmontar uma ideia relativamente comum de que a discussão sobre IA no terceiro setor é, prioritariamente, uma discussão tecnológica.
Na prática, o que aparece nas respostas são desafios muito mais organizacionais do que técnicos: gestão da informação, sobrecarga operacional, baixa integração de dados, dificuldades de sistematização, fragilidade de processos e limitações de capacidade analítica.
Em muitos casos, a IA aparece menos como um “fim” e mais como uma possível camada de fortalecimento institucional. Isso evidencia que investir em IA no campo social não significa apenas oferecer acesso a ferramentas. Significa apoiar organizações a:
Existe também uma implicação importante para o investimento social privado e para a filantropia.
Historicamente, decisões sobre apoio institucional acontecem com pouca visibilidade específica sobre os desafios operacionais reais vividos pelas organizações.
O tipo de dado gerado pela atividade proposta na metodologia do IA.3 ajuda a preencher justamente essa lacuna.
Porque ele oferece:
A partir disso, começamos a avançar um passo além da pergunta “quem usa IA?”, buscando compreender “para quê o campo social precisa da IA?”.
Existe ainda uma dimensão menos técnica e um tanto mais política nesse processo.
Frequentemente, discussões sobre inovação social acabam reproduzindo uma lógica verticalizada, na qual especialistas, empresas ou financiadores definem quais seriam os problemas das organizações.
O que o IA.3 está experimentando na prática é outra lógica: criar condições para que as próprias organizações compreendam seus desafios, reflitam sobre seus processos e produzam conhecimento sobre si mesmas.
É uma alegria ver que a IA também nos ajuda a construir um retrato do campo feito com base em dados do próprio campo.
A gente tem certeza que falar sobre inteligência artificial no terceiro setor é também falar sobre como se escuta. É discutir sobre infraestrutura institucional, capacidade operacional, sobrecarga de equipes, produção coletiva de conhecimento. E obviamente, sobre quem tem legitimidade para definir quais são, afinal, as dores e prioridades do campo social brasileiro.
O resultado é um ambiente interativo de consulta e aprendizagem coletiva que organiza padrões, desafios e oportunidades de uso da IA no campo social.
A ferramenta foi construída a partir das respostas produzidas pelas próprias organizações participantes do programa IA.3. Antes da sistematização e publicação do material, os dados passaram por um processo cuidadoso de anonimização, incluindo remoção de identificadores diretos, revisão de campos abertos e tratamento de informações que pudessem permitir reconhecimento das participantes.
O objetivo foi garantir um espaço seguro de compartilhamento e aprendizagem coletiva, sem exposição de informações sensíveis das organizações.
Ficou curioso para explorar a ferramenta e navegar pelos dados coletados? Acesse aqui a ferramenta.
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